24/11/09

Seis perguntas para Clício Barroso


Clício Barroso Filho, o Clício, é um dos grandes da fotografia brasileira.
Excepcional fotógrafo de moda e publicidade, Clício provavelmente é um dos que mais rapidamente se adaptaram à fotografia digital.
Aqui ele responde a algumas perguntas.


Intacta Retina: A fotografia analógica acabou?
Clício: Comercialmente, sim. Na prática, ainda não.
A tendência é se transformar em nicho de artistas experimentais, e vai acabar no rol de "processos alternativos". Não há muito sentido em se insistir com uma tecnologia ultrapassada, poluidora e que, no final, tem hoje menos qualidade que a nova tecnologia.

IR: Você ainda usa câmera não-digital em alguma situação?
Clício: Não, não uso. Vendi minha Hasselblad há pouco, e tenho uma Pentax de filme em cima da minha mesa. É útil para segurar papéis, e bonitinha de se olhar.

IR: A fotografia está definitivamente casada com a tecnologia? E a fotografia-arte, como fica nesse novo momento?
Clício: Não entendo a pergunta. Fotografia *sempre* foi tecnologia, não? Profundos laços com a química, com a física, e a necessidade dos aparelhos. Eletrônica. Microeletrônica. Infravermelho, wireless, reconhecimento de faces, de sorrisos...
Vamos falar de arte; o modo de captura independe, o que interessa é o que está na parede, o resultado final da visão/imaginação do artista. Arrisco dizer que *nunca* a fotografia foi tão valorizada no mercado de arte como agora. Talvez a tecnologia digital tenha impulsionado o surgimento de artistas que se valem do meio fotográfico para sua expressão, ou a valorização dos clássicos, que usavam filme. Talvez os dois.

IR: Hoje, que tanta gente passou a fotografar e a média de qualidade dos fotógrafos “amadores” subiu bastante, o que irá diferenciar o grande fotógrafo do bom fotógrafo?
Clício: Ora, o de sempre; qualidade, ter o que dizer, ousadia, experimento, estudo.
Mas não foi sempre assim?

IR: Há quem diga que a caça aos megapixels tirou o caráter “vivo” da fotografia, que está cada vez mais asséptica, impessoal, sem a “marca” do fotógrafo. Já há movimentos para “sujar” a fotografia, e grupos que louvam, por exemplo, a lomografia. Ainda vale mais o momento decisivo que a quantidade de megapixels, ou é um caminho sem volta a “assepsia” da fotografia profissional?
Clício: Erra quem acha que fotografia comercial é fotografia de autor.
Não é.
Por outro lado, a fotografia tem hoje uma pluralidade ímpar na história, onde todas as experimentações são permitidas e aceitas, e onde vale mais o que tem mais conteúdo. A "assepsia" dos trabalhos comerciais se deve a uma imposição do mercado publicitário, onde o criador raramente é o fotógrafo. Faz quem precisa fazer para viver, ou quem gosta. Ninguém é obrigado.

IR: Em artigo recente, você afirma: “O romantismo idealizado do fotógrafo solitário, desplugado, artista e senhor das técnicas ocultas está ultrapassado, desmoralizado e foi substituído por quem está disposto a trabalhar colaborativamente”. Isso significa que não haverá mais nenhum Cartier Bresson, nenhum Ansel Adams, nenhum Sebastião Salgado?
Clício: Claro que vai, não "matei" o artista nem o autor, longe de mim!
O que não existe mais são os mitos de que fulano faz sucesso "porque tem um laboratorista velhinho nos Bálcãs" ou que "a marca tal e tal fez uma lente especial para beltrano", na parte técnica; e acreditar na mentira de uma mídia desinformada que acha que o Salgado, por exemplo, trabalha sozinho. Não, há uma enorme equipe apoiando, pensando, arquivando, vendendo.
Foi o que falei, não adianta romanticamente idealizar algo que não existe, e entender que nunca ninguém vai ser sozinho mais do que um grupo coeso, focado, inteligente. Por isso os coletivos fotográficos, por isso os eventos, simpósios e encontros de fotógrafos, por isso o Twitter e o Facebook e as listas de discussão e os fóruns.
Mas mesmo trabalhando colaborativamente acredito que alguns sempre se destacam, quebram paradigmas e criam outros.

Algumas fotos de Clício Barroso








*Conheça mais sobre o trabalho de Clício Barroso em seu site: www.clicio.com.br
*Entrevista concedida via e-mail a André Gonçalves, originalmente publicada no Intacta Retina

09/11/09

Ângela Diniz levou quatro tiros em 30 de dezembro de 1976. Seu crime: ser bonita, desejada, sentir desejo, expressar desejo, ir contra a moral vigente, ser “a Pantera de Minas”. Doca Street disparou quatro tiros na imoral que pediu a ele que fosse embora, que a deixasse viver a vida da maneira que quisesse. E que morreu porque queria ser livre. Doca Street foi inocentado, em 1979, e saiu aplaudido do fórum. Sua defesa, um clássico: “legítima defesa da honra”. Desancando Ângela Diniz, afirmando que ela era uma mulher que “vivia na horizontal”, Evandro Lins e Silva, advogado de Doca Street, convenceu o júri de que Ângela Diniz “pediu” para ser assassinada. A vítima, mulher, linda, sensual, vivia de modo incompatível com a “moral e os bons costumes”, e isso legitimou o ato de Doca Street. Que defendia a honra, a moral, paladino do comportamento “natural” do homem. Menos mal que, dois anos depois, por pressão dos movimentos feministas, das esquerdas e dos “rebeldes imorais”, o mesmo Doca Street voltou a julgamento e foi condenado a 15 anos de prisão.
Mas assusta estarmos em 2009 e uma moça ser expulsa de uma Universidade por atentar contra a “moral e os bons costumes”. Assusta perceber que alunos, universitários, jovens, possam ter cercado uma mulher de minissaia, minivestido ou o que seja, e chamá-la de “puta”. E assusta ainda mais ouvir e ler os “manifestantes” afirmando que foi ela “quem pediu”.
Como assim, “ela pediu”? Como assim, usava roupa curta demais? Como assim, levantou o vestido? Estratégia antiga, das mais torpes, machistas, fascistas, inaceitáveis: transformar a vítima em réu. Desabonar a conduta da vítima para justificar um crime. Transformar um crime em inevitável defesa da ordem e dos bons costumes. Desde quando uma turba de universitários chamando uma mulher de vinte anos de “puta” é defender a instituição Universidade? Qual é a régua que mede o tamanho da moral? A moral está cinco centímetros abaixo do joelho? Ou três centímetros acima do umbigo? Quem vai punir os verdadeiros agressores, os que agrediram verbalmente Geisy, a humilharam e transformaram seu vestido cor de rosa em escândalo nacional, no país da Mulher-Melancia? Como assim, foi expulsa porque era preciso manter a “honra” da Universidade?
Ângela Diniz está morta. E dá medo perceber que, trinta anos depois, quem acreditava que ela mereceu morrer “porque pediu” continua vivo, e espalhando sua imbecilidade em um dos lugares que mais exigem liberdade, debate, respeito, divergência, convergência, tolerância: a Universidade. Isso explica porque tantas Ângelas anônimas continuam sendo mortas e agredidas Brasil afora. Outras deverão vir por aí. Em nome da moral e dos bons costumes. Na legítima defesa da honra.
Sim, dá muito medo. E vergonha.

Update: vale ler o que Lola escreveu sobre a suspensão da expulsão e a manifestação de hoje.

02/11/09

"Fred, guerreiro, volta pro Cruzeiro!"